Colunistas

A crise da obesidade: novas promessas e riscos

Otimismo com drogas é legítimo, mas exige cautela

Novos medicamentos para diabetes e redução de peso, com efeitos incomparáveis com o que existia até aqui, farão com que 2023 entre para a história como o ano que mudou o debate público global sobre obesidade. As consequências são, ao mesmo tempo, promissoras e perigosas.

Quem lidera este movimento, até o momento, é a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante da semaglutida (vendida como Ozempic e Wegovy). O PIB da Dinamarca cresceu 1,9% no último trimestre – 90% do avanço atribuido à Novo Nordisk, que recentemente se tornou a empresa mais valiosa da Europa.

O fenômeno tem origem clara: a demanda global por esses medicamentos explodiu, superando a capa cidade de fornecimento da empresa. No Brasil, o Ozempic, para diabetes, deve ter disponibilidade intermitente até o final do ano e o Wegovy, para obesidade, só chegará em 2024.

Existe motivo para otimismo. A obesidade é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, responsáveis por 178 mil mortes evitáveis todos os anos no Brasil. Segundo a Novo Nordisk, houve redução de 20% nos eventos cardíacos adversos graves com uso do medicamento, incluindo AVC e morte. Isso representaria 35 mil vidas salvas por ano, um potencial significativo para o país que viu a obesidade mórbida crescer 30% nos últimos quatro anos.

Mas também existem motivos para cautela e preocupação. Mais estudos independentes são imprescindíveis para confirmar os resultados até aqui quase tudo que sabemos foi financiado pela própria indústria. Pior: sabe-se que os medicamentos atuam reduzindo o apetite, mas os mecanismos exatos não são totalmente conhecidos.

Deve-se notar também os custos elevados – o Ozempic custa a partir de R$ 700 por mês no Brasil, e o Wegovy deve passar de R$2.000. No nosso país, a obesidade afeta 16% mais quem recebe até meio salário mínimo do que quem ganha mais de cinco. Em Nova York já se sabe que quem mais está consumindo esses medicamentos são os moradores de bairros mais ricos – onde a prevalência de pessoas acima do peso é menor e a expectativa de vida é maior. O mesmo deve ocorrer por aqui – e quem mais precisa pode ficar sem acesso.

Como o remédio é de administração contínua e não requer receita, há grande risco de consumo exagerado, inclusive incentivado pela indústria. O acompanhamento médico será fundamental; o que pode ser um desafio. Levantamento da ONG Impulso Gov mostra que 8 de cada 10 municípios não consegue acompanhar nem metade da sua população com diabetes, condição intimamente ligada à obesidade.

Em grande parte, a origem da crise de saúde pública da obesidade é social e comportamental. O ritmo alucinado da vida urbana, o alto consumo de alimentos ultraprocessados, o acesso limitado a espaços de recreação com segurança e a baixa prevalência de atividade física são fatores determinantes e demandam políticas públicas de mitigação. A futura ação dos governos será fundamental para assegurar a utilização segura, não abusiva e democrática desses medicamentos. Mas não podemos nos esquecer dessa faceta distópica da sociedade: criamos alimentos ultraprocessados cada vez mais baratos que induzem o sobreconsumo e a obesidade – e, agora, medicamentos para ficarmos satisfeitos com menos comida. Não atacamos a raiz do problema.

Texto de Marcia Castro e João Abreu para a Folha de São Paulo

(Professora de demografia, é chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard e colunista da Folha)

Diretor-executivo da Impulso Gov

Romeu Lima

Share
Published by
Romeu Lima

Recent Posts

Veja o que funciona no Pará durante o Carnaval e Quarta-feira de Cinzas

O funcionamento de serviços em Belém deve passar por mudanças devido ao ponto facultativo de…

3 dias ago

CARNABELÉM 2026, PREFEITURA DIVULGA PROGRAMAÇÃO QUE PROMETE AGITAR A CIDADE

A Prefeitura de Belém lançou o Carnabelém 2026, apontado como o maior carnaval já realizado…

6 dias ago

Concurso do Hospital Gaspar Vianna: comissão formada e edital previsto para 2026

A Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV)confirmou a contratação da banca Consuplan, que assunirá…

1 semana ago

Paraense conquista 2° lugar no Miss Brasil Mundo 2026

A miss paraense Maria Cecília Nóbrega alcançou o 2° lugar no concurso Miss Brasil Mundo…

2 semanas ago

Anvisa define regras para cultivo de cannabis medicinal

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma resolução que autoriza, com regras restritas,…

3 semanas ago

Belém amplia vacinação contra a gripe em shoppings da capital

A Prefeitura de Belém, por meio da Sesma, intensificou a vacinação contra a gripe até…

3 semanas ago

This website uses cookies.